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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Há tantas auroras que ainda não brilharam...
Em meio a martírios, que trouxeram consigo uma enxaqueca ininterrupta de três dias, mais vômitos de muco dos mais penosos...eu possui uma clareza dialética por excellence e examinei a fundo e friamente coisas que não sou alpinista, não sou refinado, não sou frio o suficiente para pensar quando me encontro em situações mais saudáveis [...] Um médico, que me tratou como doente nervoso por longo tempo, disse ao fim: "Não! o problema não está em seus nervos, eu mesmo estou apenas nervoso". Era simplesmente impossível de ser demonstrada qualquer degeneração local; nenhuma moléstia do estômago condicionada de forma orgânica, por mais que sempre, como consequência do esgotamento geral, se revelasse a profunda fraqueza do meu sistema gástrico. Também a moléstia nos olhos, a cegueira se aproximando pouco a pouco e perigosamente, era apenas consequência, não era causa. De modo que com cada acréscimo em força vital também a visão ficava mais forte...Convalescença significa para mim uma longa, demasiado longa série de anos - mas lamentavelmente ela significa também, ao mesmo tempo, recaída, declínio, periodismo de uma espécie de décadence. Até mesmo aquela arte filigrânica de prender e compreender, aquele dedo para nuances, aquela psicologia de "ver além da esquina" e tudo aquilo de que me apossei foi aprendido apenas naquela época, é o verdadeiro presente daquele tempo em que tudo se aprimorou em mim, a observação em si e todos os órgãos da observação. Aquela energia para o isolamento e para o rompimento de relações costumeiras, a compulsão contra mim mesmo, a vontade de não deixar mais me tratarem, me servirem, me medicarem...tudo traía o instinto de certeza incondicional acerca daquilo que na naquela época me era necessário mais do que tudo. Eu mesmo me tomei pela mão, eu mesmo voltei a me tornar são: a condição para isso - não há psicologia que não reconheceria - é que ao cabo de contas a gente seja saudável. Um ser tipicamente mórbido não pode vir a se tornar são e muito menos vir a se tornar são por sua própria conta; para alguém que é tipicamente saudável uma doença pode, ao contrário, até ser uma estimulação enérgica à vida, a viver mais. É assim que vejo agora aquele longo tempo de enfermidade: é como se eu tivesse redescoberto a vida de novo, incluindo-me dentro dela; eu degustei todas as coisas boas e até mesmo coisas insignificantes, como outros não os podem degustar com tanta facilidade - eu fiz de minha vontade para a saúde, para a vida, a minha filosofia...Pois é preciso que se dê atenção a isso: os anos em que minha vitalidade foi mais débil foram os anos em que deixei de ser pessimista: o instinto do auto-reestabelecimento me proibiu uma filosofia da miséria e do desânimo...E é nisso que se reconhece, no fundo, a vida que deu certo! No fato de um homem bem-educado fazer bem aos nossos sentidos: no fato de ele ser talhado em uma madeira que é dura, suave e cheirosa ao mesmo tempo. A ele só faz gosto o que lhe é salutar; seu prazer; seu desejo acabam lá onde as fronteiras do salutar passam a estar em perigo. Ele adivinha meios curativos contra lesões, ele aproveita acasos desagradáveis em seu próprio favor; o que não acaba com ele, fortalece-o. Ele acumula por instinto tudo aquilo que vê, ouve e experimenta à sua soma: ele é um princípio selecionador, ele reprova muito. Ele está sempre em sua própria companhia, mesmo que esteja em contato com livros, pessoas ou paisagens: ele honra pelo ato de selecionar, pelo ato de permitir, pelo ato de confiar. A todo o tipo de estímulo ele reage lentamente, com aquela lentidão que uma longa cautela e um orgulho desejado inculcaram nele - ele testa o estímulo que se aproxima; ele está longe de ir ao encontro dele. Ele não acredita nem no "infortúnio" nem na "culpa": ele dá conta de si mesmo e dos outros; ele sabe esquecer...Ele é forte o suficiente a ponto de fazer com que tudo tenha de vir para o seu bem... Vá lá, eu sou o antípoda de um décadent : pois acabei de descrever a mim mesmo.

{Essa dupla série de experiências, essa acessibilidade a mundos aparentemente segregados se repete em minha natureza em todos os sentidos - eu sou um duplo, eu também tenho um "segundo" rosto, além do primeiro. E talvez também um terceiro... Tão só a minha origem me permite um olhar além de toda e qualquer perspectiva condicionada pelo meramente local, pelo meramente nacional...}

Ecce Homo
De como a gente se torna o que a gente é

Nietzsche